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sábado, 30 de maio de 2020

O baixo invertido e a ignorância

THE BEATLES (George, John, Ringo, Paul)


A compreensão necessita de maturidade.

Quando eu era pequeno (mais novo), eu via os THE BEATLES tocando e achava "ridículo" porque tinha "um cara" que tocava a "guitarra" invertida.

Em primeiro lugar, mesmo que eu ouvisse THE BEATLES desde o ventre de minha mãe, nem sabia, nessa época citada acima, que eles eram ingleses (um completo ignorante).

Somando-se a isso, eu não sabia que a guitarra era, de fato, um contrabaixo... (mais ignorância).

Ainda, o "cara" que eu achava ridículo (eu achava todos eles ridículos rsrsrs) era ninguém mais que Paul McCartney... E ele preferia inverter as cordas (por isso o baixo invertido) porque é canhoto (digo preferia, porque tem canhotos que tocam como destros, like myself).

Ou seja, nesse fútil exemplo, pode-se observar que a ignorância nos transforma em verdadeiros tolos. O lado positivo dela é que, como não sabemos da realidade, acreditamos naquilo... Não sei se positivo, mas talvez cômico (trágico?)...

Quando vejo situações e pessoas (me incluo aqui) fazendo a mesma coisa - mas agora não com bandas e "guitarras" invertidas - fico triste, pois é apenas a ignorância que as deixam assim.

A palavra GURU, em sânscrito, significa "luz na escuridão".

Essa luz precisa ser libertada. O diamante precisa ser lapidado. As couraças do ego precisam ser derrubadas. Esse trabalho de transformação necessita de muita força de vontade, autoconhecimento, humildade, coração aberto, dentre muitas outras coisas. A partir do momento que eu achar que "já sei", a ignorância se instala.

Pergunte-se:
O que você tem certeza absoluta?
Quem você acha que está "errado" enquanto você está "certo"?
Você consegue identificar suas crenças limitantes?
Você aceita a opinião dos outros?

Hoje, graças a Deus, minha banda preferida é THE BEATLES e sei algumas coisas sobre eles.

O trabalho de despertar continua para que a luz possa aparecer, iluminar...

Namaste,

Luis Mauricio.


quarta-feira, 8 de abril de 2020

O livre arbítrio e suas conexões com o Dharma, o Karma e os Samskaras




Para que possamos desenvolver a ideia do livre arbítrio à luz do Yoga, faz-se necessário o entendimento de conceitos importantes pelos quais nossas vidas são ancoradas. 

A partir desses conceitos, é possível compreender que o livre arbítrio é relativo, e sua abrangência está vinculada aos Samskaras e ao Karma, como veremos no decorrer do desenvolvimento abaixo. 

O Dharma pode ser entendido como o propósito de vida sob dois aspectos: coletivo e individual. É como uma engrenagem que está ligada a outra engrenagem, que está ligada a outra... E assim por diante. As engrenagens juntas formam o "todo", e cada engrenagem menor é formada por diversos dentes. Dessa maneira, cada dente faz sua própria engrenagem girar, quando em ligação com outros dentes, de outras engrenagens. Na união dos movimentos de todos os dentes de todas as engrenagens, é que o sistema como um todo funciona de maneira harmônica. 

Assim somos nós, seres do Planeta e do Cosmos. Estamos todos (sem exceção) ligados e cada ação, de cada um, resulta em reações para todos.

Por isso, quando vamos agir, precisamos pensar: "Como isso afeta o próximo (ou a Natureza)"? Essa é a forma "dármica" de pensar, quando nos preocupamos em não fazer o mal para ninguém, nem para nós mesmos. Esse equilíbrio precisa ser mantido: pensar somente em si próprio seria egoísmo, e somente no próximo estaria deixando o Si Mesmo de lado. Portanto, essa balança entre pensar em si próprio e nos demais precisa ser sempre equilibrada. Basta sempre fazer a pergunta acima, destacada entre aspas. 

Ainda com relação ao propósito de vida, o Dharma é o seu "talento", que pode ser colocado em ação durante a vida. Quando você vive uma vida "dármica", existe fluidez, tudo acontece de maneira que os caminhos se abrem, e seu coração vibra numa frequência bonita. O contrário também é verdadeiro: fora do Dharma, existe sofrimento, dor, parece que tudo dá errado... É o Universo falando: "Esse não é o caminho". Viver no Dharma é ter o sentimento de "flow" - que muitos sentem em momentos específicos de felicidade, de realizações importantes. 

Dito isso, falemos sobre os Samskaras. 

Os Samskaras são "ativadores subliminares" que estão em nossa mente mais profunda. Todas as vezes que fazemos a captação das impressões externas (do plano material) através dos cinco sentidos, ou ainda quando pensamos ou sentimos algo, estamos criando ou ativando os Samskaras. Eles estão arraigados em nosso Ser. O conjunto de Samskaras similares foram um "caminho" que chamamos de Vasanas.

Para ilustrar, imagine uma corrente... Cada elo é um Samskara, e o conjunto deles formam a corrente toda, a corrente seria o Vasana. Assim, o conjunto de impressões iguais (Samskaras) sobre determinado aspecto sobre o que pensamos, sentimos, acreditamos etc, formam um "caminho mental" sobre aquele aspecto, e isso é o Vasana.

Esses Vasanas são como uma "trilha", ou seja, não conseguimos pensar fora dessa trilha quando estamos condicionados a ela. Outra ilustração: imagine uma pista de boliche. Existem muitos caminhos pelos quais você pode arremessar uma bola de boliche para ela seguir até os bastões. Porém, se a bola cair na "vala" lateral, ela não poderá seguir por outro caminho. O Vasana é como a vala: uma vez que a bola caia ali, segue ali até o final.

Essas ilustrações - e os conceitos de Vasanas e Samskaras - mostram que existe um condicionamento mental que nos leva para determinados pensamentos, sentimentos, palavras, ações... Iguais. São esses condicionamentos que trabalhamos na prática do Yoga, que nos permite mudá-los a partir de quando temos o entendimento de que alguns deles são nocivos para nossas vidas.

Agora, passamos para exemplos mais práticos do que as ilustrações acima citadas.

Imagine que você sente raiva toda vez que ouve determinado julgamento sobre você. O julgamento que você ouve ativa Samskaras referentes aquilo que está ouvindo - pois se você não tivesse esse conjunto de Samskaras não sentiria nada a ouvir determinadas palavras. Assim, o resultado de ouvir isso é sentir raiva. Essa raiva está dentro de você e te faz mal.

Os Samskaras podem ser entendidos como aspectos repetitivos de nossa mente, e estes formam hábitos. É por esse motivo que os padrões de repetição existem e nos levam sempre a fazer a mesma coisa, ter a mesma reação em determinada situação e assim por diante. Então, fica uma pergunta: como mudar se minha mente está recheada de Samskaras?

Novos caminhos podem ser construídos (novos Vasanas) com o entendimento dessas sementes internas, ou seja, dos Samskaras. O processo de resignificação para a mudança interna é possível permite que novos Vasanas sejam desenvolvidos, de forma a eliminar os nocivos e fortalecer aqueles que fazem bem.

Entendendo o porquê desses Samskaras fazerem parte de sua mente, é possível eliminá-los através da prática da Meditação, trabalhando com processos de desconstrução e resignificação daquilo faz sentido para você, até não fazer mais - e assim deixar de sentir a raiva. Quando a semente não está na terra, obviamente não há o que germinar. Quando não há determinados Samskaras, não há sentido ou significado naquilo que poderia lhe fazer mal.

Por isso, é muito importante que possamos construir hábitos saudáveis e eliminar tudo que nos faz mal. Isso permite novas possibilidades e um novo universo em nossas vidas: melhorar a alimentação, praticar exercícios físicos, abandonar vícios, relacionar-se com pessoas que nos fazem bem, entre outros.

Duas práticas que auxiliam no processo acima explicado são Swadhyaya e Tapas, dois Niyamas importantíssimos no processo de evolução. Swadhyaya é o processo de auto-estudo, pelo qual é possível entender a si mesmo. Nessa prática, busco saber os motivos que me levam a determinadas ações e reações errôneas, ou seja, é o processo de identificação, é o primeiro passo.

Após identificar o que é nocivo (e aqui cabe um adendo, pois a aceitação é primordial para tal identificação. Sem aceitar que algo me faz mal, não é possível a mudança), passamos para a prática de Tapas, que é a transformação interna através da autossuperação, da melhoria contínua do Ser. Tapas pode ser simbolizado pelo fogo, que tudo transforma. Assim, usa-se o "fogo da consciência" para que seja possível transmutar aquilo que faz mal, diluir... E então chegar em algo melhor e mais saudável.

Em resumo: praticar o auto-estudo (junto com aceitação) e a autossuperação pode levar-nos a construir novos caminhos, novos vasanas, pois "queimaremos" (com Tapas) os samskaras que fazem mal, e construiremos os novos, que nos levarão aos novos caminhos.

Um último conceito importante a ser desenvolvido é o Karma.

Muitas vezes ouço que Karma é a "cruz", ou algo negativo que a pessoa "carrega"... Não! Isso é uma ideia incorreta dessa maravilhosa lei da Natureza.

Karma significa "ação". Portanto, entende-se o Karma como a lei de ação e reação, porque todas as ações resultam em "n" reações. A partir de qualquer ação, existem resultados. Então, tudo que fazemos, falamos, pensamos, sentimos... Tudo tem resultado.

Assim, boas ações levam a bons resultados. Da mesma forma, ações incorretas (fora do Dharma) resultam em uma vida de sofrimento.

Podem haver resultados de ações desta vida ou das vidas passadas. Portanto, aceitar tudo que chega, com gratidão no coração, é aceitar esses resultados (que nós mesmos produzimos).

Tem uma frase muito famosa, por assim dizer, que resume bem isso: "não chorar pelo leite derramado". Esse jargão mostra que a ação é derrubar o leite. O leite derramado é o resultado. Chorar de nada adianta, pois ele já caiu... Agora, basta limpar tudo e começar de novo!

A aceitação não é passividade ou imparcialidade (ou ainda, apatia) sobre as coisas, mas sim um processo de compreensão de que aquilo aconteceu e, independente do motivo, está tudo bem. Mas se esse acontecimento gerou sofrimento, precisa-se trabalhar para que novas ações sejam construídas e novos resultados sejam obtidos.

Agora uma reflexão importante: se minha mente possui os Samskaras, que moldam a forma de pensar, agir etc, meu Karma (minhas ações) será sempre vinculado aos Samskaras. Isto é, as ações sempre estarão pautadas por aquilo que conheço, pelas sementes que fazem parte desse jardim mental, ou ainda pelos anéis da corrente (citada acima).

Assim, chegamos ao entendimento: o livre arbítrio está balizado pelos Samskaras e pelo Karma, portanto é uma liberdade relativa, não absoluta.

E então, com esse raciocínio, vem uma possível conclusão: "Mas então não existe livre arbítrio, pois estarei sempre vinculado ao que minha mente contempla, ou seja, só consigo agir sobre as coisas que fazem parte do meu entendimento, daquilo que sei que existe, dos elos da corrente que conheço, das sementes que plantei nesse jardim mental..." - e assim segue.

Isso é verdade, sim... Por isso, o livre arbítrio ser relativo.

Mas neste momento do entendimento todo acima, cabe uma reflexão ainda maior: para que minhas ações sejam diferentes, melhores que as anteriores, preciso "pensar diferente". Esse é o processo de desidentificação, de desconstrução de parâmetros impostos (pela sociedade, família etc), para que a diluição dos egos nocivos seja realizada e, então, a Consciência desperte.

Também existe uma ilustração para isso: "pensar fora da caixa". A caixa são seus padrões, suas certezas, suas opiniões, tudo que você acredita ser real. Quando você sai da caixa, você amplia o espectro de sua visão, permite que sua mente entenda novas possibilidades. Novas "verdades" chegam e o entendimento sobre a vida muda. Os velhos padrões (que estão dentro da caixa) são abandonados (com gratidão pelo tempo que fizeram parte) e a infinitude de novas possibilidades (fora da caixa) ficam completamente disponíveis.

Através da prática do Yoga, com aceitação, auto-estudo, autossuperação, e todas as outras ferramentas que essa visão de mundo nos proporciona, é possível a mudança interna, para que novos caminhos (Vasanas) sejam construídos (novas ações, novos Karmas), caminhos mais saudáveis, belos, leves, cheios de oportunidades maravilhosas, livres de sofrimento e dor.

Que possamos exercer nosso livre arbítrio com responsabilidade, sempre pautado no Dharma. Que nossa realidade seja sempre ampliada pelos processos de autoconhecimento e auto-observação, os quais eliminam as "certezas" antigas, para uma realidade ampla, cheia de gratidão, Amor puro e Plenitude.

Gratidão, Namastê,

Luis Mauricio Fiorelli

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Kali Yuga - A "idade do vício"

Kalki, encarnação final de Vishnu


Certa vez, andava eu pela calçada de uma avenida movimentada e escutei um casal conversando algo como: "Sim, aquele rapaz é muito bom, ajuda a todos ao redor..." - ou seja, ouvi uma parte do elogio que aquele casal fazia a outra pessoa. Após alguns poucos metros dali, passou um grupo de pessoas e uma das mulheres dizia: "Quando ela levar um tiro na cara vai parar de ser filha da P..." - e fiquei horrorizado, tanto pela frase, como por ser completamente oposta ao que ouvira há poucos segundos antes. Nesse momento, pensei "Kali Yuga... ". 

Para entendermos Kali Yuga, e porque isso acontece, é importante estudarmos as Eras Hindus. No calendário cósmico Hindu, a divisão do tempo é feita em Eras, sendo: 

- Satya Yuga - duração de 1.728.000 anos;
- Tetrâ Yuga - duração de 1.296.000 anos;
- Dvâpara Yuga - duração de 864.000 anos;
- Kali Yuga - a era atual, duração de 432.000 anos. 


A Era atual é a chamada era do vício, ou da destruição, ou ainda das trevas. São muitas as características negativas desta fase, onde o ser humano apresenta-se degradado em termos espirituais, culturais, de educação, meio ambiente... Percebe-se também que a dualidade é marcante, sendo que numa mesma casa/família, observamos uma pessoa que rouba e outra que é elevada em termos da moral e ética, por exemplo. 

Kali Yuga é a era associada ao demônio Kali (não confundir o mesmo com a deusa Kali). No Bhagavata Purana, é dito que Kali recebeu permissão para viver onde quer que houvesse matança de vacas, jogatina, prostituição e embriaguez, sendo, estas, características proeminentes da Era de Ferro a qual vivemos. 

Quando eu ando nas ruas da cidade (ando, mesmo, literalmente à pé), consigo escutar partes de conversas absurdas e incríveis, ver cenas lindas e horrendas, quase que ao mesmo tempo. Essa é a dualidade de Kali Yuga, conforme comentado nas cenas ouvidas/presenciadas no primeiro parágrafo. 

Outra cena comovente é um Ambulatório próximo ao centro da cidade em que moro. Nesse local, são atendidas centenas de pessoas todos os dias (consultas médicas, exames etc), tudo pelo "SUS". Enquanto as pessoas estão lá esperando os atendimentos, elas: fumam, comem doces, salgados e marmitas, tomam refrigerantes e sucos, e ficam espalhadas pelas calçadas próximas ao Ambulatório em questão. Quando consomem suas comidas, bebidas e cigarros, elas simplesmente jogam tudo no chão (restos de comida, latas, bitucas, embalagens de cigarros e salgadinhos e assim por diante). Nessa cena de lixo e degradação, tem dois agravantes: elas ficam sentadas no chão que elas mesmas jogam o lixo. Muitos deitam e dormem nas calçadas (isso mesmo, deitam e dormem...). Vale ressaltar que o Ambulatório possui lixeiras facilmente visíveis (quando passamos na rua, já da para ver), bem como "casa de apoio ao paciente", com banheiros, mais lixeiras, água, café... E ainda, a própria rua, possui contêineres de lixo - que além de elas não usarem para jogar o lixo produzido, esses grandes depósitos de lixo ficam com as tampas abertas, pois os vendedores ambulantes e restaurantes locais tem preguiça de fechar a tampa (acreditem se quiser...). 

Como se não bastasse o descrito acima, aqui vem uma parte bizarra da história: essas mesmas calçadas que os pacientes se deitam para esperar as consultas, no período da noite são utilizadas por travestis para prostituição e vendas de drogas, locais inclusive que fazem "strip" na rua e masturbam "motoboys" e transeuntes a pé (acreditem, é verdade). Durante o dia, é fácil encontrar nas calçadas incontáveis preservativos, bitucas de cigarro e "pinos" de cocaína. 

Assim, essas calçadas traduzem exatamente o que é a Kali Yuga: um ciclo de absurda degradação, na qual o ser "humano" se coloca em situações horrendas, completamente distante do caminho da Luz. De noite, drogas e sexo. De dia, ficam em cima da degradação e jogam mais e mais lixos para depois deitarem em cima. 

Mesmo com tudo isso, sigo o caminho com a Luz do Bem. A vibração precisa se manter elevada para não sermos tragados pelas dualidades e degradação. A força, o discernimento, a harmonia, a paz, a alegria, o silêncio (interno), e a gratidão imperam em minha vida. E quando observo tudo isso acima, elevo meus pensamentos e sentimentos ao grande Pai e à grande Mãe e peço que os grandes Mestres continuem nos ajudando nessa árdua fase de transição. 

Que possamos nos preparar para a nova Era (Satya Yuga) ! 
Que possamos vivenciar dias melhores ! 
Que tenhamos paz, paz, paz ! 

Namastê.

Luis Mauricio Fiorelli.